Como será o amanhã

Nossa visão ainda é curta demais para saber como será o mundo no final do processo de mudanças. Projetamos o futuro a partir de nosso presente, ampliado e distorcido pelos medos e pelas esperanças. Basta olhar para o que nos anos 1960 e 1970 se vislumbrava sobre o que seria o ano 2000. É bom lembrar quando escutarmos os profetas do caos vaticinando a morte da democracia. Ela já sobreviveu catástrofes e desafios e continua, imperfeita e muitas vezes mancando, sempre avante. Não significa que os riscos não existam: existem e são sérios e muitos também são novos e por isso não os conhecemos suficientemente. Quando tudo está sendo redefinido pela comunicação digital, a democracia deve ser entendida, pensada e aparelhada.

A democracia verdadeira só existe se está sempre encaminhada em direção àquilo que deveria ser, afirma o filósofo alemão Jürgen Habermas. Não basta ter eleições formais para que exista democracia: é preciso andar em direção à justiça e à igualdade de direitos. Esse argumento é forte e perigoso: pode justificar o abuso das instituições. O debate em relação à Venezuela é exatamente esse: Chávez e Maduro disseram resgatar a essência da democracia desmontando os mecanismos de equilíbrio e controle entre poderes. A mesma coisa aconteceu na Bolívia: Evo Morales justificou na vontade popular a sua reeleição em 2019, fora dos termos constitucionais; de igual maneira, quem o destituiu disse agir na defesa da democracia. Em nome da democracia invocam-se manobras e golpes mais ou menos legais pelo mundo: Rússia, Turquia e Brasil são alguns exemplos de um fenômeno mais extenso. 

A indignação, já vimos, está na origem dos movimentos que revertem o status quo, muitas vezes a partir das redes sociais. Esses protestos podem resultar em mais democracia ou em menos democracia. Por exemplo, os movimentos de junho de 2013, contra o aumento no preço do transporte e outras causas. Ainda que possa haver disputas acerca das consequências positivas ou negativas para a democracia, é inquestionável que esses movimentos mudaram o mapa político, econômico e social do Brasil. 

O poder da indignação, potencializado pela capilaridade das redes sociais, está na capacidade de nos reunir em torno de uma causa. Já não sou mais apenas “eu”: somos “nós”. E juntos, podemos. Podemos exigir, podemos mudar o rumo. Podemos até mudar o mundo. A força do “nós” é espantosa. Especialmente forte quando se faz identidade coletiva: quando olhamos ao redor e vemos que somos parte de algo maior. 

Uma nação é uma identidade narrativa plural que age a partir de sua história, de seu caráter encarnado nas suas instituições: na Constituição, nas leis, nos seus representantes escolhidos pela vontade coletiva, nos seus heróis. O nacionalismo é uma narrativa que apela a emoções positivas (pertencimento, amor) e negativas (medo, ódio). São positivas e negativas não em termos de julgamento moral, mas como signos: a pertença nos atrai (aos semelhantes) e o medo nos afasta (dos diferentes). 

Algumas formas de “nós” reduzem o “eu”: o preço de pertencer é entregar o próprio ser ao grupo; não se pensa mais por si, não se age fora do que o coletivo manda ou permite. Encontramos exemplos em alguns movimentos políticos (de direita e de esquerda), que exigem uma adesão acrítica ao líder: não se questiona a doutrina, quem pensa é quem está no alto, as bases somente apoiam e obedecem. É como algumas religiões são vividas e impostas a uma sociedade ou a um grupo: quem questiona a autoridade é queimado, apedrejado, expulso da comunidade e do acesso à salvação. Em instituições como as forças armadas, o indivíduo serve apenas como peça numa estrutura maior. Em ambientes corporativos, onde a sobrevivência exige não se destacar do conjunto e o terno é um uniforme. 

Em toda identidade há um lugar para os outros, porque eu não me faço sozinho nem estou sozinho no mundo. Quando se trata de uma identidade individual, todos os que não são “eu” são o outro: os próximos, os amigos, os familiares, os amados. Mas também estão os inimigos, os adversários, os desconhecidos. Numa identidade coletiva, o outro é aquele que está fora do limite marcado pelo que chamo de “nós”. 

O outro como inimigo, como ameaça, é muito útil para unir e dar força a uma identidade plural. Reforçar os laços para se defender: é o diferencial do humano em relação a outros animais. Quando o que está em jogo é a sobrevivência do grupo, o individual perde relevância e a submissão ao coletivo parece uma necessidade evidente; até os mais individualistas depõem as suas restrições para servir à causa comum. Está na base do nacionalismo: vamos todos juntos contra o inimigo. Resulta uma identidade plural de aspecto forte e sólido, sem fraturas nem dúvidas. Uma família, um povo, uma nação sob ameaça juntam forças, se aglutinam. Um sentimento de solidariedade, de estar e de ser juntos se impõe sobre as diferenças menores ou mesmo as maiores: numa guerra, o Estado deixa de atender aos interesses da classe dominante, nacionaliza as empresas para produzir armas, põe no campo de batalha oficiais vindos das elites, emprega artistas para produzir propaganda. As liberdades individuais são postergadas quando o que manda é o interesse geral de uma identidade coletiva maior. Numa guerra ou numa pandemia, como bem lembra o filósofo francês Alain Badiou. 

O inimigo externo serviu para sustentar a ditadura argentina das décadas dos anos 1970 e 1980. As coisas não iam bem sob o governo dos militares, então eles decidiram recuperar as ilhas Malvinas do ocupante inglês. Multidões de argentinos bem-intencionados saíram às ruas para manifestar seu apoio ao presidente, um general com fama de alcoólatra e um discurso tosco, Leopoldo Fortunato Galtieri. O nacionalismo desenfreado abafou e postergou as críticas e os questionamentos que vinham ganhando a sociedade. Algo semelhante acontecera poucos anos antes, quando sob o governo de um outro general, Jorge Rafael Videla, a Argentina organizou e ganhou (quase certamente de maneira espúria) a Copa do Mundo de futebol: políticos sequestrados ouviram do interior de suas prisões clandestinas o bramar de uma nação que se dizia unida e feliz. Os militares argentinos, porém, provaram-se mais eficazes para assassinar estudantes e torturar mulheres grávidas do que para lutar no campo de batalha: as Forças Armadas argentinas foram derrotadas rapidamente pela Grã-Bretanha. A humilhação ocupou o lugar do triunfalismo e então veio a ressaca que iria desaguar na volta da democracia. Como teria sido a história se as Malvinas não tivessem voltado a ser Falkland? Se a premiê Margareth Thatcher não tivesse visto ela mesma a oportunidade de unir o povo britânico em torno de uma causa bélica e assim ganhar mais poder para impor sua agenda ultraliberal? Quem não tem um inimigo externo o inventa. Um presidente francês culto e defensor do republicanismo pode servir como alvo para um sujeito que faz da própria tosquidade e do desrespeito pelo diferente uma bandeira – seja ele presidente dos EUA ou do Brasil. Uma hipótese de guerra ou uma guerra declarada, uma potência hegemônica, cumprem a função de aglutinar um povo. A China ocupa hoje o lugar que já foi da Rússia e a covid-19 rendeu um bom arsenal nesse sentido.

Quando o inimigo externo não é suficiente, há sempre a possibilidade de se construir um interno. Hitler fez isso bem, mas não foi a único. Para o déspota, as vantagens do inimigo interno são incontáveis. Tensionar a sociedade para controlá-la é o truque desse jogo. 

Ditadores sabem desde sempre. Demagogos, também: o outro é a ferramenta básica do populismo. Ter um bom inimigo a quem odiar é fundamental para construir uma massa, um povo ao qual se deve conduzir. Esse é o primeiro grande risco do populismo: quando não há uma guerra, quando o inimigo externo não basta, ele procura ou constrói um inimigo interno. É aí que nasce a polarização. O populismo leva necessariamente à polarização e polarização é ruptura, é divisão.

O segundo risco do populismo é que ele exige uma diminuição do indivíduo em prol da causa comum. Cada indivíduo sente sobre si a força redutora: os que não estão comigo estão contra mim. Todo pensamento crítico e todo matiz devem ser postergados se não servem para o objetivo central, que é o de derrotar o adversário ou o inimigo. Populismo e polarização matam o pensamento e a inteligência, acabam com o diálogo e reduzem a democracia. 

Dialogar é pensar a dois; sem diálogo pensa-se menos, pensa-se pior. Democracia é o sistema concebido para dar lugar a interesses conflitantes por meio de acordos, balanços, contrapesos. Uma democracia é feita de conflitos sempre em resolução, e as soluções nunca são definitivas. Por isso, a democracia é caótica, barulhenta e imperfeita: ela precisa se ajustar ao constante jogo de forças entre demandas contrapostas. Quando um grupo ganha excessiva força para impor as suas demandas, a democracia fica reduzida; se são duas as forças poderosas que se opõem, então há um equilíbrio, mas é um equilíbrio feito na base do abandono das terceiras, quartas, quintas posições. Tudo é subordinado a esses polos, não há diversidade nem nuanças possíveis. 

Ser caótica e barulhenta é uma característica positiva da democracia, não um defeito. Uma democracia saudável deve promover as identidades coletivas que contêm e as identidades individuais que conformam ambas. Dentro da democracia devemos encontrar espaço para ser mais e de maneira mais verdadeira, e para isso o sistema deve permitir e regular o conflito entre muitas diversidades, encontrar os mecanismos e os espaços de acordo. Não se trata de eliminar os conflitos (muitos deles são estruturais), mas de evitar que eles destruam o tecido comum, sem esmagar nesse esforço aquilo que é diferente. Querer uma democracia ordenada é querer menos democracia. Devemos suspeitar de uma democracia que não treme, que não ruge: por trás da ordem existe, sempre, um caos escondido. E quando o caos não se faz visível, quando os conflitos são negados, a consequência é o sofrimento e a ruptura. A polarização se alimenta de conflitos não resolvidos pela via de uma democracia autêntica.

Quando a identidade (coletiva, plural) de uma nação se fratura por causa da polarização, todos perdem. O indivíduo, as identidades coletivas que compõem a nação e a própria nação, que fica diminuída, enrijecida e mais frágil. Basta olhar para o exemplo de grandes ditaduras de aparência forte que caíram da noite para o dia. As trincas, ainda que invisíveis, vão enfraquecendo a estrutura, que uma chacoalhada interna ou externa pode fazer desabar.

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